As presidenciais de 2011 têm sido vividas sob o signo da decepção. De um ponto de vista pessoal, a decepção começa no mandato presidencial de Cavaco Silva. Por quatro grandes ordens de razão: 1) No referendo de 2007, recusou-se a tomar posição. Para não interferir, para não perder o equilíbrio, argumentou-se. Não podia estar mais em desacordo. Um político que não tenha por missão procurar influenciar a realidade, de modo a que esta possa representar os valores políticos e mundividenciais em que se revê, não é garante para o seu eleitorado. A procura do prestígio pessoal como valor em si mesmo não me importa num agente político. Ver os familiares mais próximos do Presidente da República e os seus principais apoiantes a acotovelarem-se, na parte final dessa campanha, em apelos ao voto, ficando o Presidente resguardado – e quando as suas taxas de aprovação eram mais altas do que nunca, altura propicia, pois, para influenciar e interferir, como se esperaria – não me pareceu bem. Um Presidente, ao contrário do que Cavaco disse no debate com Defensor Moura, numa deliciosa gaffe, não deve estar acima dos portugueses; 2) Permitir que Rui Pereira, em menos de um mês e meio, tenha transitado do Tribunal Constitucional para o governo, para o ministério da Administração Interna, foi duro golpe na necessária separação de poderes. Esperava-se, mesmo em plena lua de mel da cooperação estratégica, um claro não a tal pretensão. Para um institucionalista, para mais vendo o tom alarmante como convocou o país para a questão do estatuto político-administrativo dos Açores – ainda que aí com razão – não se compreende a abstenção, neste domínio; 3) A questão das escutas. Comentadores próximos do actual PR oscilam entre dizer que o caso foi um fait-divers, que não se percebeu bem, que houve uma reacção a quente pessoal, que o caso, pasme-se, ainda não está totalmente esclarecido. E, no entanto, quem leu semanas a fio o conjunto de insinuações gratuitas publicadas no jornal Público sobre supostas escutas de São Bento a Belém, quem leu durante semanas a fio o corajoso provedor do leitor do Público, quem viu e ouviu, mais do que tudo, as explicações fantasmagóricas de Cavaco, lobrigando-se um técnico de informática que, coitado, lá nos veio garantir que o sistema informático de Belém não era à prova de bala, quem assistiu ao trajecto de Fernando Lima antes e depois das escutas, quem viu tudo isto e muito mais, só por suma hipocrisia pode afirmar tratar-se de um fait-divers ou de uma infelicidade: foi um acto gravíssimo e que delapidou um património que Cavaco construira; 4) Confundir a posição pessoal, com o cargo que se ocupa é outro erro em política (e não só de âmbito nacional, reconheça-se). Mas, no caso, não ir às cerimónias de alguém que levou longe o nome de Portugal e da cultura portuguesa – mesmo que discordando das suas opiniões ou opções; e nós, mesmo neste espaço, também várias vezes o fizemos – um dos dois Nobel que o país alcançou – independentemente do valor absoluto, intrínseco do prémio – porque se tinha prometido aos netos passar umas férias na Madeira e dali não se podia arredar o pé, é, no mínimo, embaraçante.
Dito isto, e porque em grande medida é este mandato que está em análise, a decepção não se ficou pelo actual PR. Se há muito se percebera que preso no tacticismo de que não conseguiu libertar-se, Alegre não reeditaria o movimento, a motivação cívica que logrou há cinco anos, as atenções, desta feita, estavam concentradas em Fernando Nobre. Nobre, figura que o país se habituara a respeitar, admirar e ouvir pela coragem pessoal e actos humanitários de inquestionável valor, nunca percebeu o fato em que iria meter-se. Quando, logo no primeiro debate, o ouvi fazer declarações que mereciam figurar numa antologia do mais destemperado populismo político, relativamente à sua experiência pessoal, quando ouvi propostas que nada tinham a ver com o cargo de presidente da república, percebi que definitivamente não seria dali que viria uma boa resposta.
Ao contrário do que analistas encartados previam, a eleição presidencial não está a ser marcada por uma esperança salvífica em alguns dos candidatos, dada a crise que vivemos. Não. Não sei se por um ganho de racionalidade, se por um acréscimo de indiferença, as eleições presidenciais não são factor de esperança, para quase ninguém. Alguns dos debates televisivos foram quase semi-clandestinos. Muita gente da minha geração que gosta e acompanha a política desligou ou nem sequer chegou a ligar o interruptor. Não por qualquer sentimento genuíno anti-política, mas porque, manifestamente, no caso presente, e num órgão unipessoal (ainda para mais, com parcimoniosos poderes), a decepção com as escolhas possíveis é grande.
Boa Semana
Pedro Seixas Miranda
Sem comentários:
Enviar um comentário