segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Uma visão pra a nossa sociedade - O telescópio de Schopenhauer...

Este texto foi escrito por um amigo meu, Pedro Seixas Miranda, há cerca de um ano para o Boletim informativo/cultural da Escola Secundária Camilo Castelo Branco.

O telescópio de Schopenhauer
1- Imaginemo-nos em eras porvir, situemo-nos em épocas distantes e olhemos para trás. Sentemo-nos. Utilizemos um telescópio. Avaliaremos dali melhor o presente. Um juízo projectadamente ex post, mas feito, deliberadamente, já hoje. Um bom político usará deste raciocínio e verá, na prudência espacial, os efeitos, para as gerações vindouras, das medidas de agora. O conselho é de um filósofo, Schopenhauer.
2- Há um ciclo vicioso associado á pobreza em Portugal: porque as pessoas são pobres, como têm parcos recursos (económicos, mas também educacionais/culturais familiares), tendem, muitas vezes, a adquirir pouca qualificação (académica); pouco qualificadas, terão empregos com baixos salários e serão pobres. Com baixos salários, os descontos mensais resultam diminutos, o que, dadas as regras vigentes no domínio da Segurança Social, se traduzirá por minguadas pensões. Ou seja, como não raramente acontece, uma pessoa pode manter-se pobre da infância à velhice.
3- O lugar para cortar cerce esta triste cadeia é, seguramente, a escola. No recentemente publicado Um olhar sobre a pobreza – vulnerabilidade e exclusão social no Portugal contemporâneo, a equipa de cientistas sociais coordenada pelo Prof. Alfredo Bruto da Costa expõe de modo muito claro como uma visão de combate à pobreza, no nosso país, assente, exclusivamente, em uma abordagem assistencial – a garantia, a todos, do que a sociedade conceba, a cada tempo, como mínimo(s) de dignidade humana – é extremamente redutora. Enquanto cada pessoa, cada cidadão não se autonomizar e alcançar a independência, mesmo que satisfeitas as necessidades normativamente plasmadas como básicas, continuará a ser pobre. A exigência ao Estado, longe de diminuir, propende a densificar-se: facultar aos cidadãos, nomeadamente através do ensino, a possibilidade de aquisição dos conhecimentos/instrumentos/ferramentas necessárias para que a liberdade de um estádio de não pobreza possa emergir, com o devido acesso ao mercado de trabalho. Citando o estudo acima referido: “o sistema educativo adquire uma importância decisiva que, para ser correspondida terá de assegurar não só o acesso normal das crianças pobres ao sistema escolar, certamente indispensável, mas também as condições de sucesso (que efectivamente se traduza na aquisição de conhecimentos e aptidões) e, ainda, o apoio à família, que permita «libertar» a criança da sua função de contribuir para o rendimento familiar” (pág.187).
4- Uma meritocracia, baseada em uma igualdade de oportunidades que seja manto diáfano que esconda uma desigualdade preexistente, de modo a apenas, ou sobretudo, recompensar os que “possuem contextos familiares afortunados ou dotes genéticos” (como diria Crosland, assim descrito por Raymond Plant, em Direita e Esquerda? – Divisões Ideológicas no séc.XXI) seria injusta. É necessário fazer funcionar para com os mais desfavorecidos também no domínio da capacidade de aprendizagem, o princípio da compensação (Rawls, Uma Teoria da justiça), isto é, como em nenhum mérito concorreram aqueles que a natureza dotou de maiores faculdades (e de um contexto pessoal-social propício a desenvolvê-las), levando-os a maiores proventos, sem que o talento, propriedade individual, mas o rendimento/benefício acrescido resultante de uma desigualdade a priori que moralmente não se qualifica como meritória seja taxado, e, ainda, na medida em que a prioridade à liberdade implica que tais capacidades (superiores) possam ser expressas sem que necessariamente sejam comercializáveis (Rawls, A justiça como equidade), tudo resulte em benefício maior, concentrado na escola, dos menos dotados. Mas aqui importa não incorrer numa falácia igualitária: recompensas desiguais são necessárias “para mobilizar o talento, numa sociedade livre que não controle o trabalho”. Há um conjunto de actividades e/ou profissões, cujo esforço, rigor, treino, disciplina, trabalho, dedicação, estudo só serão apetecíveis, para um amplo conjunto de cidadãos, caso exista uma boa recompensa. E não há que presumir, desde logo no momento do desenho de uma situação meramente hipotética, uma posição original, espécie de estado natureza onde se definem, através de representantes, as regras (societárias) mais justas, a coberto de um veú da ignorância que muito desconhece (sexo, idade, família, condição social, tendências psicológicas, geração, etc.) para poder melhor decidir, um excessivo optimismo antropológico, num contrato social. A diferenciação de recompensas é justificada e legítima, mesmo do ponto de vista do princípio da diferença, em que tal desigualdade tem como escopo o benefício dos menos afortunados (“os mais bem dotados (…) são estimulados a adquirir benefícios adicionais (…) com a condição de que treinem os seus talentos naturais e os utilizem com o intuito de contribuir para o bem dos menos bem dotados (…) A reciprocidade é uma ideia moral situada entre, por um lado, a imparcialidade, que é altruísta, e a vantagem mútua por outro”, pág.108, A Justiça como Equidade).
5- A escola, portanto, o centro das atenções. Hoje, como ontem. Uma escola capaz de puxar para cima os mais desfavorecidos. Com menos estatísticas, menos relatórios burocráticos para fazer, mas com o livro que não queremos que desapareça – ainda que o livro possa atropelar a memória, e um saber de cor é um saber de coração, como sabiam Sócrates e Cristo que nada escreveram, nota Steiner, em O Silêncio dos Livros, referência já antes firmada por Unamuno, em A Agonia do cristianismo – os clássicos que desejamos eternos e a que alguns não têm direito na estante de casa (logo, se não for a escola ou apetrechadas bibliotecas a fornecê-los…), para que na leitura se ganhe mundo sem sair do quarto (Pedro Mexia), para que a sageza (e a bondade, a ironia, o cepticismo ou a compaixão) dos espíritos maiores possam passar para o leitor (Antonhy O´Hear) …E que a filosofia não desapareça, porque é na destreza das dúvidas que a curiosidade se alimenta. Dir-nos-á o filósofo (Fernando Savater, O Valor de Educar): mas porquê a filosofia? A curiosidade, desde que haja curiosidade – seja o mundo visto da física ou da química, através da matemática ou da lupa astrónoma – o mundo será lugar de descoberta e realização. Sim, será. Mas quando há muito a especialização no “átomo do átomo” ganhou a palma, negligenciando quando não desprezando o demais, as humanidades se separaram das ciências duras (e/ou vice-versa), quando o discurso público é ocupado por um incessante economês, uma lógica puramente utilitária, eficientista, cheia de agregados onde não se reconhece a pessoa concreta, numa lógica imanentista, exclusivamente técnica, filosofar é urgente. No “país dos engenheiros e economistas” (Miguel Real, A Morte de Portugal), faltam filósofos. E transcendência.
6- Lê-se Os Maias pelo livro de comentários, porque apenas o útil importa e o útil é preencher o questionário do teste seguinte. Como se um teste, qualquer teste, por melhor teste que fosse, pudesse alguma vez ombrear com Os Maias. Perde-se a ironia. E o humor. Amanhã, Eça será lido em hiper-texto, linkando (gerúndio de um verbo a aportuguesar brevemente, linkar) os maiores disparates que vão junto a comentários eruditos e especializados, fruto de talento combinado com anos de estudo e investigação, a par de investimento pessoal-familiar. Mas ao qual não se reconhece autoridade e onde, portanto, a crítica se perde. A distinção doxa/epistéme é posta em causa. As teses de Andrew Keen sobre o modo como a Internet está a mudar a cultura e a economia globais (O Culto do Amadorismo) podem ser parciais, olhando, unicamente, aos aspectos negativos da rede (de Narciso) – e de facto, a crítica é apaixonada e parcial, com o seu quê de miopia para com os benefícios, largos, proporcionados pela net. Mas em boa medida é, igualmente, justa. A combinação da generalização de um conceito televisivo marcadamente tendente à mera satisfação dos gostos mais primários de um público pouco exigente, uma opção discutivelmente democrática – “nada no seio da democracia proíbe as pessoas mais instruídas de comunicarem o seu saber às que o são menos. Pelo contrário, a democracia sempre procurou elevar o nível de educação; é essa a sua aspiração”, escreve o insuspeito filósofo liberal Karl Popper na obra Televisão: um perigo para a democracia, escrita em co-autoria com Jonh Condry – terá transformado o homo sapiens em sub espécie de Homo ludens, o homo videns que não evolui já pelo pensamento abstracto que conceitos como “Estado” ou “Democracia” inculcam, mas se fixa na vertigem do acesso directo a “mesas” e “cadeiras” ou “camas” visíveis (Giovanni Sartori, Televisão e pós-pensamento), repleto de realitys que crê serem a realidade, a única realidade, transformando em inexistente o que não vê (a par de um fenómeno de desvalorização da intimidade). Prostrando-se perante a imanência. A imanência como única eminência. E, assim, pondo de parte, sem questionamentos, toda a noção e hipótese de transcendência (“o símbolo vive da evocação e sugestão do ausente e choca com o imanentismo e a pretensão da exibição total da civilização da imagem (…) a consequência é a desvalorização do imaginário em geral, da «capacidade simbólica para forçar o significante banal a nomear um simbolizado invisível» (…) o pensamento fica remetido para a imanência, mais ainda, para o que há”, págs.146/147, José Maria Mardones, em Deus no século XXI e o futuro do Cristianismo, obra coordenada por Anselmo Borges). E que não mais do que A Era do Vazio (Lipovetsky)? Já não a morte de Deus (Nietszche), já não a angústia pela ausência de sentido, já não o se Deus está morto tudo me é permitido (Dostoievsky), nem tão pouco a observação de que se a morte acaba com tudo torna-se muito mais difícil acreditar que podemos ter razão, ainda que sejamos derrotados (Orwell), mas a ausência de perguntas e nem a angústia da carência de porquês. Se a Nostalgia do Absoluto (Steiner) sempre por cá andou, mesmo no mundo pós-revolução industrial, novas narrativas e mitos gerando, até ao totalitarismo de natureza apocalíptica, será, pois, tempo – como prevê Jonh Gray – frustradas as paixões ideológicas, de retoma da religião perdida na emancipação e anomia do maquinismo ensurdecedor e ensandecido e da migração para as megapólis na última centúria, depois dos abalos saídos do cepticismo e racionalismo omnipotentes e auto-suficientes de finais do séc.XVIII? Ainda assim, é um vazio hiante que parece marcar o espírito do tempo.
Combinação explosiva de uma sobreinformação torrencial muitas vezes transformada em subinformação, mar onde é fácil naufragar e difícil proceder ao distinguo do que permanece e do que é espuma (Edgar Morin, As Grandes questões do nosso tempo).
Desafios difíceis à escola: minada pela “ilusão democrática” (Keen) de que cada comentário e opinião – ainda que com diferenças abismais de conhecimentos e aptidões pelo meio – valem o mesmo (uma ilusão que, na verdade, a rede potencia); com o ruído do ver a sobrepor-se ao silêncio dos livros; onde o “convocar para o significado” – George Steiner, definindo o papel do professor de Humanidades – se torna mais difícil se o pensamento abstracto é desvalorizado, a transcendência uma impossibilidade, o útil, o pragmatismo asséptico o preceito, o único preceito. E quando estamos em tempo de aceleração da história, de um avanço tecnológico voraz e imparável, o aviso de Térese Delpech (O Regresso da Barbárie) é incontornável: o desfasamento entre o delíquio tecnológico e o não acompanhamento das estruturas mentais/psicológicas, que são o que são, foi um dado extraordinariamente relevante no contexto da Alemanha das primeiras décadas do séc.XX. Que é como dizer, progresso-progresso só na técnica. No mais, procurar na memória permanentemente evocada – na qual instrução e educação podem ser um continuum; a leitura de Se Isto é um Homem, de Primo Levi, é sugestão neste duplo contexto – o robustecimento possível dessa camada fina a que chamamos civilização.
7- Falar de escola é ainda e sempre perguntar o que é o homem (e não, como às vezes parece, para que serve o homem?). E encontrar lugar para as matérias entendidas como fundamentais ao seu desenvolvimento harmonioso. Uma visão global do humano a que os gregos chamavam Paideia. Desde logo, tarefa “para os próximos cinquenta anos”, “definir o humano” (Alvin Tofler). Encontrar lugar para a bioética, informada, porventura, como sugere George Steiner (Os Livros que não escrevi) com a criação nos currículos escolares de uma “introdução à biologia molecular e à genética”. A inventariação do que está em jogo é longa: “clonagem, criação in vitro de moléculas auto-replicantes, projectos de sequenciação do genoma, possibilidade de transplante de órgãos vitais – incluindo a memória” – estatuto jurídico dos robots… “Que aspectos da ética, do direito, da demografia ou das políticas sociais se poderão manter imunes a estas reorganizações da vida do corpo e da consciência? Todas as questões relativas à responsabilidade individual, à identidade pessoal, à duração do tempo de vida, ao direito de programar a hereditariedade, aos limites da intervenção do Estado na determinação do género (tendo em vista fins militares) e à eliminação das malformações genéticas tendem a ser reformuladas” (Steiner). Assim sendo, “qualquer consciência adulta e responsável terá necessidade de se informar, ainda que a um nível introdutório, ou pré-técnico por assim dizer, acerca dos conceitos da nova alquimia. Na alternativa, as mulheres e os homens ver-se-ão excluídos de um debate indispensável ao nível político, social e individual” (págs.230/231, Os Livros que não escrevi).
Esta injunção de Steiner está longe de qualquer solipsismo. Rodney Brooks, director do Laboratório de Inteligência Artificial e Fujitsu Professor de Ciências da Computação no MIT, em Os próximos cinquenta anos – a ciência na primeira metade do séc.XXI, uma colectânea de ensaios de alguns dos mais destacados e influentes cientistas da actualidade, acrescenta questões (“o que é estar vivo? O que faz com que algo se torne “humano”? O que faz com que algo se torne “sub-humano”? O que é um super-humano? Que alterações da humanidade são aceitáveis? É eticamente legítimo manipular a vida humana? É eticamente aceitável manipular a vida humana para introduzir certas “correcções”? Que versão de “vida” é “humana”? Que responsabilidade deve ter o cientista individual pelas formas de vida que manipula - ou cria?”) do mesmo passo que concretiza a vanguarda do conhecimento científico – “alguns tetraplégicos com lesões em pontos muito elevados da coluna, mesmo junto do tronco cerebral, de tal forma a impedir que falem ou controlem a sua respiração, precisando de um ventilador, são agora capazes, através de implantes neurais nos seus cérebros, de comandar um rato de computador apenas pelo pensamento. Este interface permite-lhes comunicar novamente com o mundo e exercer, assim, alguma espécie de controlo. No mínimo dos mínimos, podem escolher o que ver nos seus ecrãs de computador e, ainda que de forma trabalhosa, podem escrever comandos, mensagens, e-mails” – e os adventos dos “próximos dez a vinte anos”: a adopção da “tecnologia robótica, silício e aço aos nossos corpos para melhorar as nossas capacidades e compreensão do mundo (…) talvez sejamos capazes de ter uma ligação sem fios à Internet instalada directamente nos nossos cérebros – embora ainda não se saiba como iremos “ver” ou “sentir” as páginas Web consultadas desta forma”. Seria, pois, a consumação da “unificação da carne e das máquinas” que dá título ao ensaio deste autor. Na mesma obra, Mihali Czikentmihalyi, um investigador na área da psicologia, confronta-nos com “um inverosímil ataque de igualitarismo” que conseguisse aumentar a inteligência de todas as pessoas. Seria isso bom? “Não sabemos”. Porquê? Porque “a relação ambígua entre génio e loucura sugere que inteligência em demasia pode ter as suas desvantagens – a hipersensibilidade, conduzindo à predisposição para a ansiedade e para a depressão. Ou, na medida em que a inteligência racional está ligada a atitudes egocêntricas (…) poderá levar a uma espécie ainda mais insensível e cruel que a que já somos”. Adam Wolfson relata-nos o debate ideológico, filosófico-político, mundividencial presente, hoje por hoje, nos E.U.A, com Ronald Dworkin a sugerir a necessidade – igualitária – da engenharia genética (dos aumentos artificiais de Q.I, logo que disponíveis) face a um Leon Kass dubitativo, mostrando, bem, como a ciência, explicando o “funcionamento das coisas” e dotando-nos de meios que escolheremos se, quando e como utilizar(mos) é incapaz, todavia, de “dizer algo sobre os fins humanos ou sobre o bem do homem”. Hermínio Martins, da Universidade de Oxford e do Instituto de Ciências Sociais, numa aproximação à “república tecnológica” em que nos inserimos hodiernamente, a nível global, relata como numa “lógica de extensão de direitos humanos já reconhecidos, por analogias mais ou menos defensáveis, têm surgido da parte de cientistas-engenheiros-empresários nas ciências e tecnologias da computação e da robótica reclamações para o reconhecimento dos direitos das nossas criaturas artefactuais, potencialmente de inteligência artificial de alto nível, para a inclusão entre os sapientes e as pessoas. Como se sabe, os engenheiros da área procuram investi-los com pelo menos o equivalente das nossas capacidades sensoriais, mnémicas, cognitivas, motoriais, etc., como também equipar os seres humanos com um segundo sensorium e motorium electrónico, não com órgãos extra-somáticos ou próteses clássicas, mas com novos órgãos electrónicos corporizados” (Análise Social, nº181).
De resto, alguns dos mais prestigiados órgãos de informação mundiais (New Scientist, 13/05/06; The Independent, 05/11/07; Heti Válasz, 16/08/07 – vide edição portuguesa de Março de 2008 do Courrier Internacional – ou ainda El Pais, 16/08/08) têm procurado trazer para a esfera pública um debate essencial.
8- A discussão urge, mas há escolhos no caminho. Rodney Brooks compreende bem o que está em causa: “O nosso próprio conceito de humanidade sentir-se-á ameaçado e tal poderá conduzir a guerras violentas acerca das ideias de carácter, essencialmente, intelectual e religioso. Já se vislumbram as primeiras querelas destas guerras e não são, de todo, agradáveis. A generalização que enfrentamos é a de que os humanos são máquinas – e, como tal, podem ser sujeitos às mesmas manipulações tecnológicas que aplicamos rotineiramente às máquinas. Para tornar as coisas um pouco mais complicadas, as nossas infra-estruturas tecnológicas irão alterar-se completamente, tal como aconteceu nos últimos cinquenta anos, e as tecnologias dos nossos corpos e das nossas manufacturas serão encaradas de forma generalizada, como sendo a mesma coisa”.
É importante, nestes termos, recuperar Rawls e o seu precioso conceito de razão pública como registo processual de organização do fórum público. O que propõe Rawls? Partindo da constatação de uma existência partilhada em que o pluralismo – ideológico, crente, ateu, agnóstico, mundividencial – é factor relevante, sociedades heterogéneas como regra, toda a proposta política jamais poderá ser justificada com base em uma verdade revelada. Contudo, e este é o ponto fulcral, se a universalidade da bondade de uma medida não pode ser argumentada em tais fundamentos, já a dimensão pessoal da adesão a um dado postulado apoiado em uma “doutrina abrangente” é perfeitamente plausível, aceitável, mais, agindo e explicando tais motivações, “os cidadãos por assim dizer informam os outros de onde vêem, e com que base apoiam a concepção política pública de justiça” (pág.127, A Justiça como equidade).
Quando as posições das diferentes Igrejas tendem a ser remetidas para “as sacristias”, para um exílio interior, numa visão estrita e estreita do valor de um Estado laico, negligenciando o carácter identitário e performativo de tal pertença para muitos fieis (mas) simultaneamente cidadãos (vinculados à cidade), a ideia de razão pública, como bem notou o Papa Bento XVI/Professor Joseph Ratzinger na lectio magestralis dirigida à Universidade de La Sapienza (17/01/08), pode bem ser refrescante.
O reequacionar da escola, no nosso tempo, se aceite a mais recente proposta da Comissão de Liberdade Religiosa, incluirá uma disciplina de História das Religiões (cujos antecedentes podemos vislumbrar em França nas recomendações, neste sentido, de Régis Debray). Conhecidas as diferentes tradições e cosmovisões, auxiliando, desejavelmente, quebra de preconceitos e ignorâncias variadas (entre crentes de credos diversos, entre estes e ateus, agnósticos, alunos em geral) poderá, na verdade, trazer nova pertinência à proposta (procedimental) de Rawls e ser, outrossim, enriquecedora para o(s) nosso(s) espaço(s) público(s).
9- Não creio, porém, que seja de aceitar, sem séria refutação, uma espécie de panaceia para qualquer “choque de civilizações” ou, eivada do mesmo paradigma, qualquer “aliança de civilizações” o diálogo entre religiosos enquanto representantes de uma dada civilização. No magistral Identidade e Violência, Amartya Sen desmonta e responde às teses de Huntington: são as pessoas e não as civilizações que dialogam; as pessoas têm múltiplas filiações, que valorizam a seu modo, com intensidades diversas, eventualmente mutáveis, não tendo que circunscrever-se a um pré-programa civilizacional/cultural definido em termos religiosos; posso estar mais próximo do iraniano, civilizacionalmente diverso de mim, apaixonado por Dostoievsky, Kubrick e, claro, o FC Porto do que o vizinho do terceiro esquerdo consumidor de reggaeton, dos Morangos com Açúcar e, claro, benfiquista ferrenho.
Freitas do Amaral viu bem os novos templos da razão – apesar das limitações e insuficiência desta, como convém lembrar – como promotores de trocas entre pessoas, estudantes, um novo Erasmus, não necessariamente incidindo apenas sobre os alunos do Superior, capaz de fazer mais pela compreensão mútua do que a benemérita e voluntariosa “aliança de civilizações”.
10- Música e Arquitectura, outras cadeiras a incluir nos curricula – propõe Steiner. Quem leu essas Presenças Reais, do mesmo autor, que povoam as melodias, mistério, compreensão mais funda e fecunda de uma tradução última que tantas vezes esbarra nas palavras, mas que a música converte em verdade, percebe que limites pode tocar a intuição. Se bem que Depois de Babel, não seja possível descurar, na verbalização, o modo como o uso do contrafactual (e se…) ou de formas futuras (irei, farei…), face às dificuldades do presente, ajudou à conservação da espécie – prodigiosa leitura. E a Arquitectura de formas e linhas perfeitas, estruturantes, passíveis de nos mostrarem “a forma nua” (numa leitura à lá Bell) e nos tocarem na sensibilidade de uma concentração derradeira, da arte pura? Visão elitista a que nem todos teriam acesso, eleitos sem justificação perceptível (Nigel Warburton, O Que é a Arte?).
Ora, sendo o espaço público de todos e para todos, mudar a arquitectura é incluir os que possuem alguma desvantagem motora, ganhos comuns na compreensão de uma dignidade da pessoa humana – e, ao contrário de Peter Singer, em Ética Prática, em meu entendimento, há um continuum na pessoa humana, que não se compadece com diferenciações entre o momento em que apenas pertence à espécie e aquele em que se torna pessoa, isto já quando consegue perpcionar-se, compreender-se, “reflectir-se” e projectar-se no futuro, bem após o nascimento, com as consequências que uma racionalização desta natureza subjaz – que reclama completude: fundada num respeito que não discrimine quem não se insere nos modos de vida-padrão societários – como acontece com os mais velhos, forma privilegiada de sofrerem exclusão – ou apresente características físico-mentais diversas da maioria – há muito a aprender com eles sobre o humano. Incisiva sobre este ponto, Martha C. Nussbaum (Las Fronteras de la justicia) adiciona novo paradigma nas relações dos países mais desenvolvidos com os mais pobres. É impossível a indiferença para com os que se dispõem a morrer, em barcaças sem qualidade ou segurança, chegando ao mundo opulento moribundos, tais as condições de vida na terra dos avós e dos primos, dos filhos e dos amigos que se obrigam a largar. Partindo das boas observações de Charles Beitz e Thomas Pogge, a sugestão de estender a concepção rawlsiana (da posição original) num quadro nacional, internacionalmente: não é moralmente justo que por se nascer em um país mais ou menos rico e/ou estável (por analogia com uma família, dentro do quadro nacional de Rawls), se fique condicionado decisivamente, no que ao desenvolvimento pessoal respeita. Escasseiam medidas operativas, é certo, nesta abordagem, mas desde logo, falta governança mundial. Regulação global. E um redescobrir, proposta de Nussbaum, com Grócio, a ratio de intervenções humanitárias. Da nossa responsabilidade para com o outro. Com a ênfase na pessoa e nos povos, mais do que nos governos. Sem exagerar as ameaças em favor de guerras instrumentais; respondendo ao rosto que me grita, que me ordena não matarás (Levinas). Mais do que uma obrigação de non faccere, uma resposta positiva: é dizer eis-me aqui, ser humano é isso.
11- A Escola é prioridade, mas indagar se o meio é estimulante, indispensável, simultaneamente. Está disponível on-line (http://www.serralves.pt/fotos/editor2/inserralves/Estudo%20Macroeconomico%20Relatorio%20Final.pdf) o estudo macro-económico que a Junta Metropolitana do Porto, a Casa da Música e a Porto Vivo, Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuense promoveram, referente à avaliação da possibilidade de “desenvolvimento de um cluster das indústrias criativas na região Norte” portuguesa.
Insertos em tal marco geográfico, importa atentar no documento em causa. É um texto interessante e merece bem a leitura: faz o diagnóstico, descrevendo constrangimentos e potencialidades; identifica oportunidades; propõe soluções, tudo no quadro das infra-estruturas, instituições e recursos humanos susceptíveis de alavancar a hipótese enunciada em epígrafe.
Mais centrado, é certo, no Porto e sua área metropolitana, o estudo aponta Braga, a sua demografia, juventude, movida e Universidade como pólo(s) atractivo(s); Guimarães com forte potencial, caso vença, como se espera, o desafio de capital da cultura de 2012; Aveiro com unidades relevantes na aposta em I & D, numa Universidade reconhecida. Depois, bom, depois há um significativo parágrafo sobre Vila Real: “ não obstante a sua posição privilegiada nos cruzamentos do IP4 e IP3, e consequente ligação ao Douro, Centro e Espanha (Chaves-Orense, Bragança-Zamora) não apresenta dinâmicas significativas no que respeita à ecologia criativa, e o esforço de incorporação desta dimensão passaria obrigatoriamente por um forte voluntarismo, sendo que não será de excluir o apoio a todas as dinâmicas que surjam nomeadamente nas redes de ligação transfronteiriça, e no que diz respeito á posição privilegiada de Vila Real, como porta para o Alto-Douro vinhateiro”.
Que ecologia, que ambiente criativo é este de que estamos privados? Comecemos por uma definição simples. Indústrias Criativas são a Arquitectura, Publicidade, Artes Visuais e Antiguidades, Artesanato e Joalharia, Design, Cinema, Vídeo e Audiovisual, Artes Performativas, TV e Rádio, Software e Serviços de Informática. Uma boa ecologia local exige galerias, museus, auditórios, programação cultural – e esta reclama rede de espaços e serviços; locais para ensaios, ateliês, territórios de trabalho devidamente equipados; acesso a financiamento especializado (existência de recursos públicos); moradas onde os profissionais se possam encontrar, partilhar e construir relacionamentos que contribuam para a troca de ideias e ainda um sentimento de propriedade, dos criadores, sobre tais edificações, permitindo-lhes imprimir a sua identidade. A inclusão de aposta em I & D – o exemplo dado é Braga nas engenharias de materiais e de polímeros – é crucial. E espaços não monotemáticos, mas lugares interdisciplinares de encontro. Fundamental, do mesmo modo: uma robusta parceria autarquia-universidade. “O poder político deve fazer o papel de motor de arranque (legislação, infra-estruturas, derrube de barreiras físicas e jurídicas, apoios, enquadramento fiscal)”.
12 – “A criatividade daqueles que habitam e lideram uma cidade determina o seu futuro”, pode ler-se, sem surpresa, no relatório final, da elaboração vinda de mencionar.
Um exercício de cidadania passa, pois, também, por aqui, pelo momento de proposta.
Sofrendo um vasto conjunto de obras, nos anos mais recentes; com equipamento audiovisual disponível; know-how feito de experiência, a zona do Pioledo, em Vila Real, mais concretamente a sua antiga sala de cinema, bem poderia ser alvo – se se procurasse promover um entendimento alargado entre os detentores de tal área de jurisdição – de uma parceria publico-privada, que pudesse recriar o local (se precisássemos de alguma inspiração, evocaríamos a sala Passos Manuel, no Porto, reformulada, igualmente nos últimos anos, com inegável vantagem face ao estúdio anterior; ainda que em Vila Real, obviamente, um espaço sob outras formas, linhas e cores, projectando a arquitectura, os criadores locais). Seria paisagem multiforme, de cinema e de teatro; de exposições e artes performativas; de concertos – a música ao vivo vai ganhando relevância ao nível da facturação da respectiva indústria, como se refere no dito estudo – conferências. A perspectiva não monotemática vingaria.
De resto, a forte inclinação da cidade para a margem do Teatro Municipal e do moderno centro comercial a ele contíguo, e, bem assim, dos jardins junto ao Corgo suporiam, numa lógica de harmonização das várias “geografias” e “clusters” da cidade, uma aposta neste sentido.
Porventura melhor ainda, mas talvez com custos acrescidos, um imóvel com a caracterização descrita, não já na zona anteriormente mencionada, mas no centro histórico vila-realense, desertificado no ocaso de cada dia, despido de gente e alma, sem vida. Uma das prioridades acometidas ao consórcio que efectuou o estudo passou, aliás, grandemente, pelo ultrapassar dessa irreversibilidade de abandono e degradação dos centros históricos, onde a visão preconizada pudesse vir a gerar um conjunto de intervenções públicas (o documento foi pródigo nos exemplos britânicos de recuperação de tais locais; um leitor de Orwell, não terá deixado de notar como n´O Caminho para Wigan Pier, Sheffield já não é um espelho de horrores, mas um bom aluno de uma requalificação que pode ensinar-nos).
13- Na parte das soluções em busca do “cluster” pretendido, uma das recomendações feita neste estudo é a seguinte: que no ensino Básico e Secundário os alunos sejam motivados e levados a concertos; exposições; conferências; peças de teatro; contacto com artistas; afastamento do lado passivo, de espectador, e experienciar – por exemplo, um instrumento musical – em perfomance (potencialmente) inspiradora (para o futuro).
Aqui chegados, pensemos, por um momento, na semana mais festiva da cidade durante o ano – as celebrações de Santo António – período ao qual, de resto, são alocados substantivos recursos (financeiros). Repare-se na música que passa o dia inteiro na Avenida principal (pimba); na feira do livro (quase inexistente, replicando, para pior, a oferta disponível na cidade durante os restantes meses); no teatro (nem uma única peça, nesse período, especificamente a ele dedicado); conferências (houve uma, este ano, na Sé, dedicada a Santo António); cinema (nada). Em todo o caso, cremos que uma perspectiva ensimesmada, que recuse outras modas que não sejam unicamente as nossas marchas, com medo da saída do vil metal para outras paragens, não é alternativa (paradigmática).
O cinema, configurado por linguagens fílmicas tão plurais, quanto o cinema de autor, clássico, documentário, independente, curtas-metragens, de animação, etc., nunca pareceu merecer cuidados de maior pelos poderes públicos com responsabilidade na polis e apenas conhece o horizonte comercial – no shoping center local – e a honrosa excepção que constitui a disponibilização de alguns dos melhores filmes da actualidade, pelo GACU, no Teatro Municipal, a cada quinze dias, nos meses lectivos. Indispensável, desde já, a configuração atempada de futuras sinergias com a cinemateca (ou um novo pólo da Cinemateca) a instalar na cidade do Porto, que deverá estar ao serviço de toda a região (e do país, naturalmente). Na vertente cinematográfica – mas na cultura, genericamente – aplauso merece a não acomodação presente na actividade da associação Espontânea.
Na música, a inexistência de locais de actuação de bandas de garagem endógenas – a excepção é a semana, muito concorrida, do Rock Nordeste – já em número considerável, poderá levar ao atrofiamento de um desenvolvimento ulterior desta dinâmica. E, bem entendido, o exemplo das bandas de garagem serve às demais manifestações/expressões musicais. Sobretudo, mais presença de qualidade de música que ousa questionar a condição humana, no tríptico teatro-música-literatura (ópera). Abrir novas janelas.
Em 2011, a sugestão do relatório para a Comissão Europeia, redigido pelo eurodeputado, escritor, poeta, ensaísta, cronista, jurista, tradutor Vasco Graça Moura o ano será dedicado aos autores clássicos da antiguidade, em toda a Europa (o relatório, na proposta de baixa de IVA para os livros; no intercâmbio impulsionado entre artistas, na UE, ou no novo mapa dos monumentos europeus, com vista ao redinamizar do turismo cultural, no Velho Continente, merece destaque). As edições inúmeras, certamente. Vila Real estará preparada para, finalmente, na área do teatro, nos dar a ver a Antígona e o Rei Édipo, de Sofocles, As Bacantes, de Eurípedes e tanto mais? Anos a fio a exaurir Gil Vicente, Garcia Llorca e, acolá, Garrett – autores sempre a revisitar, com certeza – darão agora, lugar, a uma outra contratualização e incentivo às companhias de teatro locais – saudação à mais recente companhia vilarealense, Trouche Mouche – capazes de nos pôr a discutir, na primeira das duas obras citadas, a perenidade/relativismo dos valores, a família e/ou o vínculo à cidade, o indivíduo e a comunidade, a relação entre irmãos (e todas as outras arrojadas teses da obra homónima de Steiner)? Para voltar a datas com autor, estejamos, ao nível da programação cultural, atentos a 2009, ano Frederick Chopin.
Quanto à discussão cidadã, no que a conferências capazes de suscitar amplo debate público diz respeito, penso que jamais se devia esquecer o momento singular, na História nacional (e local/regional), que constituíram as invasões francesas, na aurora do séc.XIX, e respectiva vitória sobre as mesmas, no que teve por consequência a manutenção da independência nacional (se bem que uma independência…muito dependente, face aos ingleses). Estão a comemorar-se os duzentos anos sobre esse acontecimento de primeira ordem, num país com idade tão respeitável, quanto o nosso. Deixar passar em claro – em exposições, peças, documentários, filmes, ensaios, recriações, etc. – esse momento marcante, que teve, ademais, Trás-os-Montes por palco, é negligência que gostaríamos não ocorresse. Mais não fosse, uma figura tão polémica quanto D.João VI, caricaturado e ridicularizado pelos historiadores e escritores temporalmente mais próximos do monarca – leia-se, entre alguma história e muita ficção, as descrições hilariantes de Raul Brandão em El-Rei Junot: os traços físicos glosados, a mulher, Carlota Joaquina, traidora, louca e maquiavélica acentuando o burlesco, a gula das pernas do frango espalhadas pelos casacos, as hemorróidas, o pio refúgio, missa hora-a-hora, em Mafra, a humilhação popular na embarcação para o Brasil… – mas recuperado pela historiografia mais recente – por todos, vide D.João VI, de Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa – onde (o plano de) ida para os Brasis, levando simbolicamente a coroa, evitando o sucedido com os espanhóis, e lançando a unidade brasileira, é fortemente sublinhada, mereceria, acreditamos, o interesse dos mais jovens, cuja reflexão sobre o passado e a História nacional é tantas vezes determinante a um olhar penetrante do nosso tempo (o escritor Jordi Soler, em crónica no El Pais, mostrava, em um outro exemplo, como a compreensão de um fenómeno como a guerra civil espanhola era determinante para uma percepção actualizada, porque ali estava a génese do conflito larvar, da oposição entre forças institucionais – políticas e religiosas – muito relevantes na sociedade espanhola, hoje por hoje).
Ao debate – e julgamos que Valentim Alexandre e Vasco Pulido Valente seriam duas boas escolhas, nesta trama – e em diálogo multidisciplinar, seguir-se-ia um quadro de Goya, Os desastres da guerra, a soldadesca napoleónica implacável, os manetas que nos chocam pela brutalidade exibida na imagem e a pergunta para que serve a imagem, e se pedimos o mesmo a um quadro ou a uma fotografia, se é verdade que ao primeiro desculpamos a ficção, o retrato imperfeito, crivado pelo subjectivo, e no segundo dos casos exigimos objectividade, a realidade tal qual, a verdade (Susan Sontag, Olhando o Sofrimento dos Outros). E daí se há fotografias (ou textos) que podem fugir-nos da mão, se há um conteúdo imanente que transcende o seu autor – “a origem da arte é a arte (…) a obra deve ser libertada para o puro estar em-si-mesma (…) só ela está aqui em questão, o artista permanece algo de indiferente em relação à obra, quase como um acesso para o surgimento da obra”; pois, “por meio e a partir do quê é que o artista é o que é? Através da obra; pois é pela obra que se conhece o artista, ou seja: a obra é que primeiro faz aparecer o artista como um mestre de arte. O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro”, escreve Heidegger, em A Origem da Obra de Arte – se importa o que o autor diz que diz a foto, se precisamos de legendas ou estas desvirtuam, se ao texto elitista, de vocabulário inacessível para alguns, se segue a foto democrática, por todos inteligível, ou que questões (maxime, de manipulação) coloca o photoshop. E no quadro de Goya, a arte enquanto manifesto, para nos fazer sofrer, nos alertar, oposta a uma arte pura, despreocupada, em absoluto, com o contexto, a história, o tempo, em busca da forma, da técnica, da estética tão só, a arte pela arte – será mito? Pois que sim, pelos preconceitos que levamos enquanto artistas ou espectadores, nunca é (uma) tábua rasa que pinta o quadro, que observa o quadro (Orwell, Porque escrevo e outros ensaios).
A discutir, com inegável interesse, na minha opinião, a questão (do alargamento) da autonomia das escolas (na contratação dos docentes e não docentes; na composição directiva formada ou não por professores; nas fontes de financiamento; nos currículos).
Concessão liberal neste texto: Jonh Stuart Mill é convincente, em Sobre a Liberdade, num intenso libelo a favor do homem livre, ruptura com a tirania da maioria, indissociável da liberdade de projecto educativo – “ tudo o que se tem dito sobre a importância da individualidade do carácter, da diversidade de opiniões e de modos de conduta envolve, com a mesma indescritível importância, a diversidade de educação” (pág.106, On Liberty). Por um lado, ficaria assegurada a obrigatoriedade de educação universal (como já hoje acontece, obviamente); seriam pagas, na totalidade, as despesas escolares de quem não tem quem pague por elas e custeadas, equitativamente, as restantes; existiria um currículo mínimo nacional, regularmente examinado; mas, a partir daqui, a possibilidade de desenvolvimento, por cada escola, de um projecto educativo autónomo estaria consagrada – e isto significaria que, muito embora não devamos cair na ingenuidade de olhar sebastianicamente para as indústrias criativas, elas poderiam ser forte aposta de uns quantos projectos (ou, por exemplo, teríamos escolas que promoveriam, especialmente, o desenvolvimento, pelos alunos, de línguas estrangeiras; faltam tradutores de maltês na UE, assinala o ex-eurodeputado, historiador, ensaísta José Pacheco Pereira; mais, o russo e o chinês serão línguas de futuro…). Como nos mostra o mais recente estudo efectuado, sobre a matéria, no Brasil (Veja, 20/08/08), quaisquer mudanças na oferta escolar só ocorrerão se e quando os agentes educativos – pais, professores e até alunos, além de parceiros de referência, como as autarquias – considerarem possível e desejável – e, de preferência, envolvendo-se em tal causa – a melhoria do ensino. Importa discutir, Vital Moreira e Adão da Fonseca, com horizontes antagónicos sobre a matéria, já apresentados na esfera pública, seriam bons guias.
Ficam, a título exemplificativo, estes dois convites ao debate. O decisivo, afinal, seria o hábito, a regularidade instituída de discutirmos a cidade e de não ter medo do confronto que é vital à democracia (e aqui me aproximo mais de Ranciére do que de Rawls).
Noutro prisma, diríamos ainda que o personalismo que atende ás pessoas, às tradições, à sua ligação e identidade – a revalorização do linho, do barro, dos pitos de Santa Luzia, das cristas de galo, do artesanato em geral, a aposta nas marchas, nas tunas locais – faria parte, também, de um bom governo local. É certo que não é de negligenciar a possibilidade de na passagem do personalismo à personalização, a denodada atenção ao outro dar lugar a uma dimensão extremadamente individualista, onde tudo é configurado em função da característica própria do indivíduo/ consumidor (e não das ligações múltiplas e da identidade daquela pessoa).
14- Regressemos ao estudo macro-económico indagador da possibilidade de emergência de um cluster de indústrias criativas, a Norte do país. Por que são ali descritas como soluções as actividades, referidas, a concretizar no Básico e Secundário?
Estando no domínio económico, sobretudo por dois motivos: para que se estimule a produção criativa (no fundo, para que se “criem” artistas, agentes culturais), mas, não menos importante, para que se possa gerar público (suficiente) interessado em exposições, concertos, teatro, cinema, etc., capaz de aderir a tal “produção”; numa palavra, para que haja “consumidores”. “Produtores” e “consumidores”, para que haja “indústria”.
15 – Embora dominados pelo jargão económico – estamos sempre a utilizar conceitos como “mais-valia”, “activos”, “passivos”, etc. – creio que o ponto de partida da educação pela arte bem poderia ser o despertar dos sentidos e da sensibilidade, a procura da Beleza e do Bem, da Verdade, o alargamento de horizontes, a quebra de preconceitos, o respeito pelo passado, o espírito crítico, a busca da justa medida, ganhar mundo, criar silêncio, procura da transcendência…
Ou então dar aquela resposta, magnífica, como justamente assinalou João Pereira Coutinho (no Expresso), que a pianista portuguesa Olga Prats transmitiu num imperdível Pessoal e Transmissível (TSF): o que me dá a música? A música nunca me falhou. Já houve pessoas que nos falharam, pessoas que inclusivamente desapareceram (faleceram), mas a música nunca me falhou. Na conseguida síntese do cronista, a música como o livro. Os amigos que não tivemos, os sonhos que não sonhámos. O lugar onde nunca estamos sós. É isso o que a música, o livro nos dão. Em vez da proposta técnica que encima este parágrafo, própria de caninos – diria Coutinho – esta melodiosa e autenticamente humana asserção de Prats.
Alargamento dos modos, das possibilidades de ser, é, ainda, teleologia que surge, lendo as Presenças Reais, de Steiner, como bem assente à diversidade cultural que a educação artística forneceria. Penso nisto, nesta dimensão pública de Educação, mas ainda na dimensão privada da mesma, porque aí, igualmente, de forma pensada ou inconsciente – e para mim, melhor se racionalizada – manifestamos um dado ideal – o nosso – de Homem (com os constrangimentos que cada realidade, de cada um, oferecerá, naturalmente).
E fito Aristóteles, e o bom julgador, na Ética a Nicómaco: “bom juiz é quem passou por um processo de educação acerca de tudo”.
16- Seria injusto não reconhecer: a densidade populacional é factor extraordinariamente relevante para a criação de uma ecologia criativa. O estudo refere esse dado. Ao mesmo tempo, porém, cita o festival de curtas-metragens, de Vila do Conde, como um evento de dimensão europeia; o festival de animação de Espinho, reconhecido internacionalmente; a festa de rua de Santa Maria da Feira como a maior da Europa. E em matéria de elogios, os autores do paper não deixaram passar em claro a recuperação e transformação de uma antiga fábrica em S.João da Madeira em um fervilhante centro de incubação de indústrias criativas (e, claro, a comparação com a situação, anos a fio, do “Hotel do Parque”, em Vila Real, favorecendo, ao longo dos tempos, actividades ilícitas e a feia grafitização do local – certamente ilícita, também – inevitável para nós: não poderia ser aquele um espaço incubador de criatividade?). Marcas registadas. E se deixássemos o estudo, e as referências nortenhas, sempre ressaltaríamos o festival Músicas do mundo, em Sines – revitalizador de toda uma cidade, mesmo ao nível arquitectónico – a festa de artesanato da feira do Chocolate, de Óbidos (a que juntaríamos a ópera ao ar livre, a feira medieval), o Festival de cinema de Tavira…
Se é preciso que os que nunca tiveram oportunidade de aceder a´Os Pássaros, de Hitchcock e, a partir dele, a uma dialéctica com as decisivas reflexões sobre o mal e a culpa, por parte de Hannah Arendt ou Santo Agostinho; se é preciso mostrar a que ponto radical coloca Kubrick a impossibilidade de (re)aprendizagem e (re)educação, em Laranja Mecânica; o modo extraordinário como Fritz Lang “desconstroi” o nacional-socialismo, em O Testamento do dr.Mabuse; o real/irreal, as máscaras do quotidiano, os deuses ex-machinas, o voyeurismo, o misterioso como franqueador de uma raiva incontida por uma ausência tão dorida, em Persona, de Bergman; ou essa extrema denúncia do fascismo, controlador de corpos e mentes, em Saló, de Pasolini – para dar apenas alguns exemplos – possam dispor dessa mesma possibilidade – o DVD com o filme de Kubrick, vindo de mencionar, encontra-se disponível na Biblioteca Municipal – é também para que possamos fixar, ao mesmo tempo, entre nós, aqueles a quem se convencionou chamar “sectores mais dinâmicos da sociedade”.
É preciso que tenhamos a noção: Vila Real perde, semanalmente, gente que vai até à animação de Ourense; que arrisca a música clássica em Corunha, se a festa do emigrante é entregue a Quim Barreiros; percebe a movida de San Tiago de Compostela como bem mais atractiva e estimulante; está disposta a aventurar-se no festival de Teatro de Mérida, para ver e sentir os clássicos gregos que por cá não passam. A Galiza, fronteira imediata, apresenta uma oferta cultural que um público mais exigente preferirá, em absoluto, a uma letargia que não perceba os desafios que importa vencer. Vila Real ganhou, nos anos mais recentes, um conjunto de equipamentos culturais bem apetrechados, modificando, sem dúvida, o panorama de marasmo entorpecedor em que se vivia. Alguns protagonistas e obras de grande qualidade ficaram acessíveis. Billy Cobham, Lizz Wright, Andy Mckee, Dulce Pontes, Diego Figueiredo, Eunice Muñoz… A cidade aderiu a esta viragem. Mas importa reconhecer que não chega. As lacunas, aqui identificadas, em domínios como o teatro, o cinema, a discussão pública, entre outras, se não colmatadas, afastarão os mais aptos da “sociedade da informação e do conhecimento” e contribuirá para a diminuição da “massa crítica” disponível. A cidade beneficiaria, ainda, para permanecermos em terreno económico de uma “vantagem competitiva” que a singularizasse (e que não fosse cópia do existente). É essa a demanda dos que “lideram e habitam” a cidade.
17- A densidade populacional é importante, também, porque onde ela é intensa, há, normalmente, diversidade cultural. Que é fundamental á criatividade. Amartya Sen, que questiona a perda de liberdade em função da preservação da diversidade, em Inglaterra – para voltarmos a Identidade e Violência – reconhece, contudo, quanto a diversidade é frutuosa. Neste âmbito, a proposta de que pelo menos no seio do Conselho Municipal da Juventude – órgão de consulta e coordenação ao nível das políticas relacionadas com os jovens, no nosso concelho – se proceda a uma alteração dos respectivos Estatutos que conduza à acomodação, nesta sede, dos alunos Erasmus, da UTAD. Não temos verificado uma atenção e vontade de aproveitarmos a contribuição que pode ser dada por quem vem até nós vinculado a tradições, culturas e identidades tão diversas. O Conselho da Juventude seria uma das formas da cidade/concelho os reconhecer, acomodar, ouvir as suas propostas.
Anuncia-se, á semelhança do que sucede em muitas outras cidades europeias, a construção, em Vila Real, na Vila Velha, de um edificado, onde possam ficar instalados os alunos Erasmus. Uma opção legítima e respeitável. Mas muitas das cidades nas quais tais prédios existem, são urbes de dimensão muito considerável. Convenhamos, não é o caso de Vila Real. E, simultaneamente, tal acantonamento Erasmus, fundado, com certeza, na louvável convicção de proporcionar melhores condições e conforto a quem vem até Vila Real estudar, não deixa de conferir uma perspectiva comunitária a cada novo estudante, quer dizer, os novos alunos percepcionados enquanto comunidade e não na sua individualidade pessoal. Esta é uma distinção liberal cuja apreensão urge contemplar. A integração, num meio pequeno como o nosso, estaria facilitada; o tempo, curto, á procura de casa, assim (re)compensado na osmose com a restante população contribuiria, ainda, para pequenas economias, conseguidas, pelos nossos conterrâneos, como até aqui, com o arrendamento. São outros, é certo, e quem não reconhece o outro como outro não se (re)conhece, como diria Montaigne, mas seriam outros/nós, e nós-outros, mais ricos, durante pelo menos seis meses.
18- Como nos verão dentro de trinta, cinquenta anos, os novos vilarealenses? Imaginamos o telescópio de Marte virado para cá, para a Vila Real de 2009? O que dirão, então, das acções e omissões de hoje, que neles se repercutem? Teremos vilarealenses a ajudar a colonizar um novo universo (de descobertas pelo meio)? Que lugar será Vila Real, quando vivermos em outros planetas? Chegará a ciência a um limite, além de ético, ontológico e gnosiológico, ou o conhecimento científico será sempre ilimitado e inexaurível, pois tal faz parte do seu ser? Descobriremos outras vidas inteligentes? Como nos faremos compreender? Terá tido razão Al Gore ou Bjorn Lomborg, quanto (ao nível de) degradação ambiental do planeta?
Terá intuído Vila Real que mais do que o integralismo religioso, o perigo poderá vir do passado, do nacionalismo que parecia afastado e dos choques que daí advêm? Como se dotará para falar com cidades de um mundo multipolar, em que o segundo mundo – a Índia, o Brasil, a Rússia – ganha voz crescente e se impõe? A excelência científica cativará mais e melhores actores na nossa Universidade, ou, a desertificação é assumida como inelutável? Começarão, desde já, aulas de chinês, indiano ou russo? Dada, aliás, a baixa demográfica das próximas décadas, que estratégia de combate ao envelhecimento populacional local e á fuga de talentos? Como lidaremos com a imigração ou as cidades com quem estamos geminados? Na competição inter-cidades, como se preconiza a relação com a Galiza? O Corgo já terá secado? E o Corgobus, que felizmente contempla nas suas paragens atenção com aqueles que poderão padecer de algum problema motor (e há que registá-lo com muito agrado), evitará as maratonas de madrugada que os mais afastados da cidade têm que fazer, se querem vir à escola? Que serviços entendemos como estratégicos como não podendo, em definitivo, sair de Vila Real? Que tipo de empregabilidade vislumbramos em Vila Real para os próximos anos – se capazes de atrair avultados investimentos e forte criação de emprego, será este estruturante? E estamos preparados para consequências negativas, sociais, que advenham de forte desemprego? Como incentivaremos a iniciativa individual, a empresa, a resposta institucional – não necessariamente do sector financeiro – à questão do microcrédito? Quando a privatização do espaço público não cessa de aumentar, há sério desinteresse do público; o desinteresse do público conduz a uma maior privatização (Zygmunt Bauman, A Vida fragmentada). Porque não aproveitar as festas da cidade para um exercício de cidadania, mesmo nas escolas, como sucede por esse mundo fora, para, como sugere Pedro Magalhães, simularmos eleições, tendo cada jovem que apresentar programa e argumentos na agora, intuindo as regras da democracia quando o desleixo, o boicote, a indiferença são grandes (mas não só, diga-se, nem talvez mais preocupante, nos mais jovens)? E porque não, logo, mostrar as instituições mais relevantes da cidade, o seu modus operandi, algumas regras fundamentais da Constituição e até normas do direito de trabalho em vigor?
O legado será o de uma cidade dinâmica, criativa, propulsora do conhecimento, ou uma urbe que não estimula e repele, que não fixa nem contribui para o catapultar de uma “classe média do conhecimento” (Paulo Castro Rangel)? Podemos ou não, dado o tempo que não perdemos nos transportes, o trânsito razoável que suportamos, o emprego próximo de casa, gerar excelência?
Por que novas competências (legislativas) deverão os órgãos municipais lutar, que transferências do poder central para o local, e com que finalidade? Que horizonte para o planeamento urbano, censurado, também, por quem nos visita (leia-se, a propósito, a última reportagem do DN, em Vila Real)? Que posição tomaremos em matéria de regionalização: uma aposta na liderança do Norte do país (como defende Miguel Cadilhe)?
É tempo de decisões.
19 – Em prefácio subscrito em 2000, para nova edição de O Labirinto da saudade – psicanálise mítica do destino português, Eduardo Lourenço já diagnosticava os sinais, cinzentos, de uma era pós-cristã, em Portugal e no Ocidente (se bem que questionando a pureza desse cristianismo português, muito paganismo à mistura, durante tempos sem fim). Em A morte de Portugal, Miguel Real é lúcido quando, precisamente, identifica menos no “decadentismo político” e mais em “um fenómeno de aceleradíssima descristianização e desumanização ética da sociedade numa tecnocracia científica anónima que nivela as nações (…) comandadas por títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios causais” um esgotamento de uma certa particularidade nacional. Uma visão concordante com a caracterização do fenómeno da pobreza apresentada em Um Olhar sobre a pobreza, coordenado por Bruto da Costa. Da rede de assistência individual, incluindo hospitais, albergarias, fraternidades para os mais pobres, na Idade Média; da Lei das Sesmarias, de D. Fernando, em 1375; da prática da medicina levada a cabo por monges e outros sacerdotes seculares; das ordens religiosas que introduziram as primeiras actividades educativas no país; das confrarias, associações voluntárias de cidadãos cristãos; das Misericórdias; dos socorros-mútuos, há uma herança que é, hoje, mau grado o voluntariado de associações como o Banco Alimentar contra a fome, seriamente questionado, efeito de duas tendências conjugadas: visão “pré-científica” da pobreza, atribuída a “pobreza hereditária”, “falta de sorte” e “preguiça”; diluição da responsabilidade individual para com os mais fracos, transferindo para o Estado todas as soluções, mas, ao mesmo tempo, reclamando a diminuição estatal.
Miguel Real exemplifica a descristianização, em Portugal: “o alto valor concedido aos novos costumes que têm por centro o corpo, erotizando a sociedade; a lei da interrupção voluntária da gravidez, secularizando a vida como um valor de mercado; (…) a manipulação genética de carácter eugenista; (…) a suspeita de futura abolição dos feriados nacionais com conotação religiosa; a mercantilização das festas religiosas (Natal, Quaresma, Páscoa); uma incessante busca de prazer e felicidade sustentados em exclusividade no bem-estar do corpo (…) provam a existência de uma profundíssima descristianização de Portugal, de efeitos absolutamente imprevisíveis na criação de uma sociedade futura desprovida de éticas espirituais assentes em valores humanistas, porventura obediente a um totalitarismo tecnocrático e informático, no qual os portugueses abdicarão da sua liberdade em nome da segurança e abastança” (pág.18).
O manifesto deste especialista em cultura portuguesa, romancista, ensaísta, dramaturgo, Professor de Filosofia – que foi Prémio Revelação de Ficção da APE/IPLB, em 1979; Prémio Revelação de Ensaio Literário da APE/IPLB, em 1995; Prémio LER/Círculo de Leitores, em 2000 e Prémio Literário Fernando Namora, em 2006 – comporta um olhar outro sobre o país, um autêntico murro no estômago do actual estado de coisas, que não podemos deixar de assinalar: “Bom governo seria hoje aquele que, por múltiplos meios, apostasse, em fazer de cada português, não um robot técnico de fato cinzento, camisa azul e gravata verde ou amarela (actual fato-macaco do cidadão técnico) (…) mas um homem culto, consciente do seu lugar na sociedade e na história. Portugal precisa menos de um choque tecnológico (…) e mais de um choque cultural, elevando cada cidadão a um exigente patamar de conhecimento humanista e cívico que, por arrasto, geraria inevitavelmente o desejado choque tecnológico. Primeiro, a cultura, o espírito, a transcendência; depois, por inevitável arrasto de exigência cívica, o progresso tecnológico (…) Todas estas medidas estariam certas se fossem acompanhadas pelo reforço de uma visão humanista e cultural da escola, tendentes a complementar tecnicamente a consolidação de um universo ético na escola fundado nos valores da dignidade, da partilha, da solidariedade, da honestidade, da lealdade, da honradez. Diferentemente, estas medidas tecnicistas, sem sentido moralmente transcendente, resumem-se a acentuar a vertente individualista e instrumental da escola, gerando cidadãos unidimensionais, submetidos exclusivamente á omnipotência do dinheiro e ao prestígio narcisista do poder, acentuando fortemente, desde a idade pré-escolar, os valores ligados á tecnocracia, a inveja, a cobiça, a ambição egotista, a manha, a dissenção (…) É um novo Portugal que está nascendo, sem sublimidade, sem espiritualidade, sem projecto superior às suas forças e à sua dimensão, o Portugal dos burocratas, o Portugal dos engenheiros e economistas, o Portugal dos pequeninos, fundado no racionalismo tecnocrático, assente na omnipotência do mercado e do dinheiro, activando ideias exclusivamente utilitárias”.
Se as humanidades não humanizam (Steiner), se são impotentes ou mesmo colaborantes com a tirania; e se até florescem, colocando maior acuidade e primor na capacidade criadora em períodos de asfixia da liberdade (tese que afasta o Steiner de O Silêncio dos Livros, do Orwell do Porque escrevo e outros ensaios, o primeiro sustentando, o segundo refutando tal teoria) em que alternativa investiremos?
Viver come bruti (Dante), reconhece o autor de O Castelo do Barba Azul, não é conselho venerável. Fomos feitos, afinal, “para seguir a virtude e o conhecimento, onde quer que nos levem”.
20- E por fim me perguntam porquê o grego, porquê o grego nas escolas? E eu digo que é necessário voltar ao agape. O alfa e o ómega, o agape.
Pedro Seixas Miranda

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